Proponho a venda, a preço de
custo, de coletes a prova de balas e facadas. Talvez aí esteja uma boa
oportunidade para quem quer empreender no Brasil.
Geralmente, tenho muito a dizer
sobre todos os assuntos, mas sobre os últimos episódios de violência tenho certa dificuldade, como se eu estivesse engasgada. Sinto-me em completa letargia como se todo o meu corpo
estivesse dormente e eu não conseguisse me mexer para virar o pescoço se quer.
Sinto um cansaço diário. Um cansaço que vai além, que me paralisa as ações.
Todos os dias, como na música do
Chico, faço tudo sempre igual. Pego o ônibus. Quase sempre lotado, então quase sempre
vou em pé. Ligo o rádio e sempre ouço as
mesmas notícias: corrupção e violência. Perco a paciência com alguém que está
dentro do ônibus, porque julgo alguma atitude desprovida de educação. Chego ao
Centro quase 2h depois. Quase sempre exausta. Meus passos até o trabalho são
incertos. Ando de punhos cerrados esperando um ataque.
Dias e dias vão passando e é
sempre assim. Sinto-me com uma bomba relógio no pescoço. Sinto-me a beira de um
constante ataque cardíaco. Falando assim parece que tenho algum medo. Já não
sinto medo. A apatia é tanta que me encontro num limbo de indiferença. Esse é
um estágio deprimente da vida humana, mas nada pude fazer para evitar. Da mesma forma que aqueles meninos armados com facas não se importam com a vida de suas
vítimas, também já não tenho me importado com a vida deles.
“... matar ou morrer e assim nos
tornamos brasileiros”, ah Cazuza! Você nunca foi tão contemporâneo. É muito
difícil ser gente grande, agora imagina a dificuldade que é ser gente grande
num país como o Brasil, onde as portas andam. Aqui o surreal é banal. Como que
um menino de rua não vai ter raiva? Como que se controla raiva sem amor, sem
abrigo, sem o mínimo? As drogas não contemplam sentimentos. Elas roubam a alma.
Estamos sendo atacados por exércitos de zumbis, como nos seriados estrangeiros. Cadê as instituições sócio-educativas deste país? É a total falência de tais instituições que colocam em xeque o ECA. O estatuto é bem feito, mas não é utilizado da forma que deveria. Um menor passa diversas vezes por internações até chegar a fase adulta ou até cometer atos cruéis, como tirar a vida de outrem. Todos sabem qual é o caminho. Falta vontade. Neste país tudo depende de vontade política. É certo que não dá pra salvar todo mundo, mas uma boa parte desses jovens podem ser resgatados. Até os 15 anos as chances são grandes.
Vamos continuar nos escondendo dentro das nossas
casas esperando uma intervenção divina, fingindo não termos nada com isso ou
vamos pressionar quem realmente pode ajudar a resolver o problema? Eu sabia que
deveria preparar meu psicológico, porque tudo neste país iria piorar, que além
de todos os problemas econômicos enfrentaríamos convulsões sociais. Começo não
achar tão apocalíptico o relatório da Empiricus, que anuncia “O Fim do Brasil”.
Eu espero que seja realmente o fim. Que depois do fim nasça um novo país. Mas
espero que cheguemos vivos até lá.