quarta-feira, 27 de maio de 2015

Sobre os casos de violência nos últimos dias

Proponho a venda, a preço de custo, de coletes a prova de balas e facadas. Talvez aí esteja uma boa oportunidade para quem quer empreender no Brasil.
Geralmente, tenho muito a dizer sobre todos os assuntos, mas sobre os últimos episódios de violência tenho certa dificuldade, como se eu estivesse engasgada. Sinto-me em completa letargia como se todo o meu corpo estivesse dormente e eu não conseguisse me mexer para virar o pescoço se quer. Sinto um cansaço diário. Um cansaço que vai além, que me paralisa as ações.
Todos os dias, como na música do Chico, faço tudo sempre igual. Pego o ônibus. Quase sempre lotado, então quase sempre vou em pé.  Ligo o rádio e sempre ouço as mesmas notícias: corrupção e violência. Perco a paciência com alguém que está dentro do ônibus, porque julgo alguma atitude desprovida de educação. Chego ao Centro quase 2h depois. Quase sempre exausta. Meus passos até o trabalho são incertos. Ando de punhos cerrados esperando um ataque.
Dias e dias vão passando e é sempre assim. Sinto-me com uma bomba relógio no pescoço. Sinto-me a beira de um constante ataque cardíaco. Falando assim parece que tenho algum medo. Já não sinto medo. A apatia é tanta que me encontro num limbo de indiferença. Esse é um estágio deprimente da vida humana, mas nada pude fazer para evitar. Da mesma forma que aqueles meninos armados com facas não se importam com a vida de suas vítimas, também já não tenho me importado com a vida deles.
“... matar ou morrer e assim nos tornamos brasileiros”, ah Cazuza! Você nunca foi tão contemporâneo. É muito difícil ser gente grande, agora imagina a dificuldade que é ser gente grande num país como o Brasil, onde as portas andam. Aqui o surreal é banal. Como que um menino de rua não vai ter raiva? Como que se controla raiva sem amor, sem abrigo, sem o mínimo? As drogas não contemplam sentimentos. Elas roubam a alma. Estamos sendo atacados por exércitos de zumbis, como nos seriados estrangeiros. Cadê as instituições sócio-educativas deste país? É a total falência de tais instituições que colocam em xeque o ECA. O estatuto é bem feito, mas não é utilizado da forma que deveria. Um menor passa diversas vezes por internações até chegar a fase adulta ou até cometer atos cruéis, como tirar a vida de outrem. Todos sabem qual é o caminho. Falta vontade. Neste país tudo depende de vontade política. É certo que não dá pra salvar todo mundo, mas uma boa parte desses jovens podem ser resgatados. Até os 15 anos as chances são grandes.  
Vamos continuar nos escondendo dentro das nossas casas esperando uma intervenção divina, fingindo não termos nada com isso ou vamos pressionar quem realmente pode ajudar a resolver o problema? Eu sabia que deveria preparar meu psicológico, porque tudo neste país iria piorar, que além de todos os problemas econômicos enfrentaríamos convulsões sociais. Começo não achar tão apocalíptico o relatório da Empiricus, que anuncia “O Fim do Brasil”. Eu espero que seja realmente o fim. Que depois do fim nasça um novo país. Mas espero que cheguemos vivos até lá. 

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