Quando você estiver discutindo
com alguém que você gosta muito, adotando um tom alto demais porque precisa que essa pessoa entenda o tamanho do desespero que está sentindo, quando você, aos gritos,
começar a trazer à tona coisas que essa pessoa fez muito tempo atrás a fim de incluí-las
na sua argumentação, quando só lhe restarem palavrões na boca, quando você
sentir que está perdendo a razão e também a compostura, acalme-se e diga para
si mesmo: “Eu não sou assim”.
Se
você não é barraqueiro e nunca foi deselegante, contenha-se. É triste ter que
se afastar tanto de si mesmo a fim de manter alguém próximo. Deixe ir, então.
A pessoa partirá de qualquer jeito. Fique em você mesmo.
Quando
você estiver dizendo coisas que não tem vontade de dizer, quando sentir que
está assumindo um personagem apenas porque é isso que a sua plateia está
exigindo, quando você não reconhecer a autenticidade da própria voz, cale-se e
pense: “Eu não sou assim”. Certamente as pessoas que estão com você não desejam você, apenas alguém que você é capaz de interpretar. Deixe-os partir, se eles não
se satisfazem com sua naturalidade, e simplesmente mantenha-se em si.
Quando
você for impelido a trair porque não está mais vivendo a vida que sonhou,
quando for induzido a mentir para que a casa não caia, quando sentir-se
obrigado a arranjar desculpas para disfarçar o próprio desejo, pergunte-se: sou
assim? Ardiloso, falso, camuflado? Se você não é assim, se nunca foi assim,
melhor enfrentar a verdade, como fazem os corajosos.
Quando
você estiver num local que não lhe agrada, conversando com pessoas que não
admira, rindo forçadamente de piadas que lhe soam grosseiras, quando estiver
prometendo visitas que sabe que não fará, submetendo-se a situações bizarras ou
vexatórias, escute o que seu desconforto está alertando: “Eu não sou assim”.
Muitas vezes, especialmente no início da idade adulta, temos que nos adequar a
certas contingências sociais se delas depende nossa sobrevivência, mas se você
já percorreu um bom caminho, construiu uma vida digna e conhece a si mesmo melhor do que ninguém, não precisa se moldar a mais nada, conquistou o direito
de ser integralmente quem é.
Quando
você estiver sendo condescendente sem receber em troca o carinho que merece,
quando você perceber-se desacomodado no que deveria ser aconchegante, quando
sentir que está se adaptando com dificuldade ao que não lhe convém, tente
perceber se está sendo educado ou se está sendo submisso – não são sinônimos.
Educação é básico, mas não exige docilidade fingida nem servilismo humilhante.
Pegue sua bolsa e tome o rumo de casa sempre que estiver escutando de si mesmo:
“Eu não sou assim”.
A
não ser que você seja.
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