Quando eu era uma criança, lembro de ouvir mães dizendo a filhos que lhes deixariam linhas telefônicas como herança. Um pouco mais velha, na escola, aprendi que Che Guevara foi um mártir e que o comunismo era um sistema igualitário (mas não me disseram que ele preteria a liberdade) e que o capitalismo era o grande causador de toda a aflição humana. Mais pra frente, me disseram para entrar na faculdade e arrumar um empreguinho legal, mas jamais se aprofundaram no conceito de "empreender". Industriais e capitalistas eram retratados em charges na escola como homens obesos, fumando charutos e bebendo whisky sentados sobre pilhas suspeitas e infinitas de dinheiro, geradas por semi-escravos explorados até a última gota de suor (mais tarde um desses pobres anjinhos pueris assumiria o poder e protagonizaria um dos maiores escândalos de corrupção da história do Brasil).
E mais velha, quando descobri que uma parcela considerável do que me foi transmitido não foi bem assim, concluí que a busca por conhecimento é a única porta de saída desta emboscada que as tradições nos colocam. Tradições são estáticas, e o estático é facilmente engolido num mundo dinâmico. Quem não busca conhecimento fica parado no tempo e a dinâmica do aprendizado através de tradições deveria ser inversa a do senso comum: desaprender. Devemos desaprender o que fomos programados a acreditar.
Não é uma linha telefônica ou um apartamento as maiores heranças que se pode deixar para um filho, mas o conhecimento.
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